Atitudes face à Imigração em Portugal: Lições Comparativas a partir de Três Comunidades Piscatórias
Encontro | 20 janeiro 2026

O primeiro Encontro sobre Experiências Migratórias de 2026 será no dia 20 de janeiro, pelas 14h30, na sala A202 do Ed.4 do Iscte - Instituto Universitário de Lisboa. O encontro conta com a presença de Rui Carvalho (CES-Coimbra) que irá falar sobre atitudes face à imigração em Portugal a partir de três comunidades piscatórias, com comentários de Jorge Malheiros (IGOT-ULisboa).

 

RESUMO

Os países Europeus têm recebido um número crescente de migrantes internacionais nos últimos anos. Neste contexto tem-se assistido, também, a uma progressiva politização da imigração, e a um aumento das atitudes negativas face à imigração e aos imigrantes, nestes países. Portugal não é uma exceção a estas tendências. Este artigo reporta os resultados de um estudo sobre as atitudes face à imigração e aos imigrantes em três comunidades piscatórias em Portugal. Todas receberam assinaláveis contingentes de imigrantes nos últimos anos. De acordo com as teorias existentes, estas comunidades deveriam ser caracterizadas por uma robusta oposição à imigração e aos imigrantes (ex., economicamente desfavorecidas; caracterizadas por fortes laços de comunidade; e tradicionalismo nos valores), em particular face a imigrantes maioritariamente provenientes do Sudeste Asiático (ex., fortes diferenças raciais, religiosas e linguísticas, face às comunidades autóctones). No entanto, e em oposição a tais expectativas, a opinião pública, incluindo no setor das pescas, face a estes imigrantes, tem sido: (a) maioritariamente positiva, e (b) apresentado variações assinaláveis entre as comunidades piscatórias de acolhimento. Utilizando vários métodos qualitativos, incluindo trabalho de campo comparativo em três comunidades piscatórias com diferentes trajetórias, foi possível identificar três fatores explicativos para estes resultados. Primeiro, a existência (ou não) de um tecido organizacional local, com forte capacidade mobilizadora em prol da incorporação destes migrantes nos espaços de atividade das populações locais. Segundo, as dinâmicas e os padrões de integração, em oposição a segregação, residencial e em termos dos espaços de atividade (ex., profissionais, comunitários) destes migrantes. Terceiro, e parcialmente em consequência dos anteriores, a existência de oportunidades para o estabelecimento de contactos interétnicos (positivos) entre os imigrantes e a população autóctone local. Discuto as implicações destes resultados para as teorias e as políticas referentes às atitudes face à imigração e aos imigrantes na Europa. 


BIOGRAFIAS

Autor 
Rui F. Carvalho (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra). 
Sociólogo (PhD, Brown University), geógrafo (BSc, Universidade Nova de Lisboa). A minha investigação centra-se sobre questões de desenvolvimento comunitário e urbano, migrações internacionais, minorias étnicas e raciais, e teorias sociológicas. O meu projeto de doutoramento analisou como as desigualdades raciais, em conjunto com outras fontes de desigualdade, influenciam as aspirações e as capacidades de migração internacional dos brasileiros. Para além de continuar esta investigação, os meus projetos de pesquisa atuais examinam as atitudes (e a oposição) aos imigrantes e à imigração, e às crises ecológicas, no contexto Europeu. A maior parte deste trabalho está a ser desenvolvida no âmbito do projeto CO3 (Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra). Em linha com as anteriores áreas de investigação, os meus interesses pedagógicos abrangem temas como: migrações e desenvolvimento, desigualdades étnicas e raciais, estudos urbanos, e teorias e métodos de investigação. Nestas experiências de ensino, tenho recorrido frequentemente à utilização de ferramentas pedagógicas baseadas em trabalho comunitário e nas artes (Hip-Hop). 

Comentário  
Jorge Macaísta Malheiros (Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa)  
Geógrafo e Investigador sénior do Grupo de Investigação ZOE do Centro de Estudos Geográficos do IGOT da Universidade de Lisboa, onde também desempenha as funções de professor associado. Ensina e investiga na área da Geografia Humana, desenvolvendo pesquisa nas temáticas dos estudos sociais urbanos, da ge- opolítica, das desigualdades socio-territoriais, da demografia e das migrações. Tem orientado diversas teses de doutoramento nas questões supra, envolvendo estudantes nacionais e estrangeiros. Vice-diretor do Co- légio Tropical da Universidade de Lisboa, tem publicado diversos trabalhos em Portugal e no estrangeiro (artigos, capítulos de livros e livros como autor e editor em editoras nacionais e internacionais) e participou e coordenou projetos de investigação no domínio da demografia, das migrações, da integração sócio espa- cial e da habitação. Foi animador da Rede Temática 2 (Integração Profissional e Social de Imigrantes, Mino- rias Étnicas e Refugiados) do Programa EQUAL da UE para a Igualdade (Portugal, 2003-2004, 2005-2007) sendo, presentemente, representante do IGOT no Observatório da Emigração, membro da direção do Con- selho Português para os Refugiados (CPR) e correspondente português do SOPEMI (OCDE – 2002-2025). Ex-Presidente da Associação Portuguesa de Geógrafos (2002 a 2004), é correspondente/avaliador ou membro do Comité Consultivo de algumas revistas científicas.