Mais do que evitar o abandono escolar: IN-Iscte conclui três anos de investigação e ação
Financiado pelo PRR, o projeto associou a evidência sociológica à intervenção pedagógica no Iscte, criando mecanismos de acompanhamento para novos estudantes e alargando a base social do Ensino Superior.

A transição para o ensino superior é um dos momentos mais críticos nos percursos académicos e sociais dos jovens. Reconhecendo que o sucesso escolar não pode ser dissociado das desigualdades de origem nem dos contextos de acolhimento, o CIES-Iscte encerrou o balanço de três anos do projeto IN-Iscte, uma iniciativa pioneira de investigação e ação destinada a promover a integração e a combater o abandono escolar no 1.º ciclo de estudos.

Com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) — através do Programa de Promoção de Sucesso e Redução de Abandono no Ensino Superior —, o projeto combinou o conhecimento empírico do Centro com o trabalho de terreno de serviços técnicos, docentes e estudantes. A coordenação científica esteve a cargo de Rosário Mauritti, professora e investigadora do CIES, e a coordenação executiva de Mariana Roque Ferreira.

Fundamentação Sociológica: Alargar a Base Social e Mapear Desigualdades

A conceção do IN-Iscte assentou num corpus denso de investigação sociológica sobre a diversificação do público universitário em Portugal. À medida que o ensino superior acolhe cortes com capitais socioculturais e económicos crescentemente heterogéneos, torna-se indispensável substituir modelos rígidos de acompanhamento por estratégias atentas à diversidade dos percursos.

O projeto definiu como objetivo transversal o alargamento da base social dos estudantes, direcionando a sua intervenção prioritária para grupos tradicionalmente sub-representados ou com maiores riscos de fratura na integração:

  • Estudantes com deficiência e de contingentes especiais;

  • Beneficiários da Ação Social Escolar e bolseiros dos PALOP;

  • Estudantes deslocados da sua residência habitual;

  • Trabalhadores-estudantes.

 

A Arquitetura da Intervenção: Cinco Eixos de Ação

Para responder à complexidade das trajetórias dos cerca de 1 400 novos alunos que ingressam anualmente em licenciaturas no Iscte, a equipa multidisciplinar desenvolveu e testou um modelo estruturado em cinco eixos de atividade:

  1. Acolhimento e Integração: Criação do Espaço Estudante como ponto centralizado de sinalização e apoio, e lançamento de programas de Mentoria por Pares;

  2. Inovação Pedagógica: Diversificação de metodologias de ensino, dentro e fora da sala de aula, promovida em articulação com o Laboratório para a Inovação na Academia (LIAC);

  3. Mecanismos de Alarmística Prévia: Desenvolvimento de ferramentas de identificação e comunicação — incluindo o desenvolvimento da App IN-Iscte — para detetar precocemente sinais de risco de abandono académico;

  4. Competências Transversais: Realização de workshops focados no reforço da autoaprendizagem, gestão de tempo e trabalho colaborativo em equipa;

  5. Monitorização e Avaliação de Impacto: Acompanhamento contínuo dos indicadores para ajuste de procedimentos em tempo real.

 

Reconhecimento Científico e Legado Documentado

O seminário final de encerramento contou com a intervenção de João Costa, ex-Ministro da Educação e Diretor da European Agency for Special Needs and Inclusive Education. Na sua análise, o IN-Iscte destaca-se pelo seu caráter integrado e replicável: “É um projeto modelar porque chega a todos, de forma integrada, unindo apoio psicológico, práticas de inclusão e o desenvolvimento de competências transversais.”

A experiência acumulada ao longo destes três anos de trabalho intersetorial — que cruzou diagnósticos da Unidade de Qualidade com a intervenção do Conselho Pedagógico, Ação Social e os Laboratórios de Inovação — será sistematizada numa publicação científica e pedagógica. Esta obra reunirá os contributos e dados recolhidos por investigadores, técnicos, docentes e estudantes envolvidos.

Para Rosário Mauritti, o principal resultado do projeto reside na sustentabilidade das transformações operadas: “O legado do IN-Iscte não se esgota nos recursos pedagógicos e relacionais. Fica um testemunho muito digno daquilo que esta experiência foi, para que possa inspirar e reproduzir-se no futuro, assegurando que o compromisso com a inclusão e o sucesso académico continue a ser um pilar central da vida institucional.”