Através do rap, do graffiti, da dança de rua e das artes digitais, uma nova geração de criadores está a subverter estereótipos, transformando a expressão artística não apenas num instrumento de autodeterminação e de construção de carreiras, mas numa afirmação plena do seu direito à cidade.
Esta dinâmica esteve no centro do PERICREATIVITY, um projeto de investigação multinstitucional iniciado em 2023. Para assinalar o encerramento do projeto, investigadores, ativistas comunitários e artistas reuniram-se ao longo de dois dias no Iscte – Instituto Universitário de Lisboa e no espaço cultural Ponto Kultural, em Algueirão-Mem Martins, num encontro que combinou debate académico, exibição de filmes e intervenção comunitária.


Dois dias de debates, cinema e ação no terreno
O programa do evento refletiu a diversidade de abordagens e o espírito colaborativo que marcaram a investigação ao longo dos últimos anos. O primeiro dia arrancou com uma sessão de abertura que contou com a presença da Reitora do Iscte, Helena Carreiras, da Diretora do CIES-Iscte, Patrícia Ávila, e dos coordenadores do projeto, Otávio Raposo (CIES-Iscte) e Lígia Ferro (IS-UP/FLUP).
A conferência de abertura esteve a cargo do sociólogo Carles Feixa (Universitat Pompeu Fabra), sob o mote “Culturas juveniles y artes urbanas: La periferia es el centro”. Feixa defendeu que a verdadeira vitalidade cultural e política das metrópoles contemporâneas já não nasce nos seus centros históricos, mas sim na fricção criativa das suas margens.

Durante a tarde, o debate ramificou-se em Grupos de Trabalho temáticos que abordaram questões centrais:
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A centralidade da criatividade digital, das artes visuais e a cocriação entre instituições, artistas e comunidades — com intervenções do artista grego Mikhail Karikis e de Franklin Soares.
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O controlo social, as experiências de políticas públicas no Sul Global (Brasil e Argentina) e as cartografias periféricas a partir das perspetivas de género, raça e direito ao espaço público.
O dia culminou no auditório com a exibição e apresentação das curtas-metragens em cocriação “O Outro Lado” e “Torre 404”, desenvolvidas em conjunto por consultoras locais do projeto, investigadores e jovens de projetos comunitários como o "Take.it".


No segundo dia, os trabalhos da manhã mantiveram-se no Iscte com foco em abordagens transdisciplinares sobre gentrificação e aporofobia, em dispositivos de participação climática e juvenil e na educação de rua como motor de transformação social.
À tarde, o evento cumpriu o seu propósito de descentralização: os participantes fizeram o percurso até Algueirão-Mem Martins para a apresentação do Ponto Kultural (Espaço de Investigação e Criação Artística).
Lá, decorreu a mesa-redonda “Práticas Artísticas e Organização Coletiva na Transformação do Território”, com a participação de representantes de associações e coletivos locais como Cintia Veiga (Jipangue), Rafaela Pereira (Narrativa Aleatória), Rodrigo Faria (Ponto Kultural/Unidigrazz) e Tomás Barroso (Teatro Corrente), moderada por Paulo Campos dos Reis. O evento encerrou em tom festivo nos Jardins da Junta de Freguesia de Algueirão-Mem Martins, com um convívio ao som do DJ Black Fox.
Da investigação às recomendações políticas
Coordenado pelo CIES-Iscte e IS-UP/FLUP, em parceria com o CICS.Nova, INET-md e o Ponto Kultural, o projeto PERICREATIVITY deixa um legado que vai muito além dos auditórios. A equipa multidisciplinar está a finalizar um conjunto de recomendações para políticas públicas mais inclusivas, interseccionais e participativas em Portugal, em linha com a Agenda 2030 da ONU.
Além das propostas diretas aos decisores políticos, o trabalho resultará na publicação de dois livros de síntese — um focado no contexto nacional e outro sob uma perspetiva internacional.
Para os investigadores e jovens envolvidos, o encerramento do PERICREATIVITY deixa uma mensagem inequívoca: a criatividade das periferias não é um mero objeto de estudo ou uma ferramenta de gestão social, mas sim uma força política viva e emancipatória que exige o seu lugar no centro da decisão.

Projeto financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT/DOI: 10.54499/2022.08993.PTDC).