
Porque é que tantos trabalhadores escolhem sair em vez de se fazerem ouvir? Como se negocia um algoritmo numa convenção coletiva? E que preço paga a saúde mental de quem representa os trabalhadores? Estas foram algumas das questões em debate durante o inter-congresso do CR25 (Comité de Recherche 25 - Sociologie des relations professionnelles et du syndicalisme) da Associação Internacional dos Sociólogos de Língua Francesa (AISLF), realizado a 29 e 30 de outubro sob o tema «Saisir et représenter le travail».
Organizado pelo CIES-Iscte, com o apoio do Turismo de Lisboa, o encontro reuniu investigadoras e investigadores de França, Bélgica, Canadá, Suíça, Itália, Brasil, Camarões e Portugal. A sessão de abertura contou com Raquel Rego (CIES-Iscte) e Jean Vandewattyne da comissão organizadora, seguindo-se uma mesa-redonda interdisciplinar de acesso livre, moderada por Catherine Sauviat (IRES), com Helena Lopes, Sara Ramos (Iscte), Patricio Nusshold (Université de Montpellier) e Cristina Rodrigues (Centro de Relações Laborais).
Quando a representação sindical recua
Um dos fios condutores do congresso foi o enfraquecimento das formas tradicionais de representação laboral. Em Itália, os investigadores analisaram as dificuldades dos sindicatos em chegar a setores cada vez mais fragmentados e precários; na Bélgica, o caso dos supermercados Delhaize permitiu discutir como a reestruturação de uma grande empresa pode reconfigurar as relações entre trabalhadores, direção e organizações sindicais.
Também os coletivos de trabalhadores da SNCF, empresa pública francesa de transporte ferroviário, estiveram sob análise, num contexto em que as identidades profissionais, as condições de trabalho e as formas de mobilização se transformam. O debate mostrou que a representação dos trabalhadores já não se esgota nas estruturas sindicais clássicas: novos coletivos, redes informais e formas de ação coletiva ganham terreno.
Greves, mobilizações e democracia interna
As greves ocuparam um lugar central no programa. Foram discutidos os conflitos nos caminhos de ferro belgas e a greve dos assistentes de bordo da Air Canada, dois exemplos de setores fortemente sindicalizados onde as condições de trabalho, a segurança e a relação com a gestão estão em disputa.
Em Hollywood, o foco deslocou-se para a democracia sindical: como se tomam as decisões dentro das organizações que representam milhares de profissionais da indústria audiovisual, e que espaço existe para a participação efetiva dos trabalhadores nessas decisões.

A inteligência artificial entra na mesa de negociação
A chegada da inteligência artificial aos locais de trabalho foi outro dos temas em destaque. No Quebec, os investigadores analisaram como os sindicatos têm procurado negociar a introdução de sistemas algorítmicos nas convenções coletivas — desde a vigilância dos trabalhadores à organização dos horários e à definição de tarefas.
A questão colocada foi clara: se um algoritmo pode decidir quem trabalha, quando trabalha e como trabalha, então a negociação coletiva precisa de acompanhar essa realidade. Em paralelo, o caso suíço mostrou uma via diferente: a entrada dos sindicatos na inspeção do trabalho, reforçando o seu papel na fiscalização das condições laborais.
Saúde mental: também a dos sindicalistas
A saúde ocupacional esteve no centro de uma das sessões, com a apresentação dos trabalhos do projeto ANR SyndiCARE. A investigação chamou a atenção para um tema frequentemente esquecido: o desgaste e o impacto na saúde mental de quem assume funções sindicais, muitas vezes acumulando o trabalho remunerado com a representação dos colegas.
A sessão dedicada aos trabalhadores precários e invisíveis completou este olhar. Das operárias dos serviços de limpeza aos trabalhadores sazonais da Champagne, o debate destacou como a precariedade dificulta não apenas o acesso a direitos, mas também a própria possibilidade de se organizar e fazer ouvir.
O caso português
O contexto nacional teve um espaço próprio, com duas sessões conduzidas em português. Os temas refletiram alguns dos principais desafios do mercado de trabalho em Portugal: o envelhecimento da força de trabalho no setor financeiro, os inquéritos sindicais sobre burnout, a consolidação dos Conselhos de Empresa Europeus e as resistências laborais dos trabalhadores imigrantes na economia de plataformas.
A economia de plataformas, em particular, colocou em evidência a dificuldade de aplicar formas clássicas de representação a trabalhadores dispersos, frequentemente classificados como independentes e ligados por aplicações digitais.

Mais do que um congresso
O encontro não se limitou às salas de conferência. Na véspera, a 28 de outubro, decorreu online a Escola Doutoral de Outono, e os participantes tiveram ainda uma visita guiada a A Voz do Operário, histórica instituição do movimento operário lisboeta, recebidos por Rita Morais. O programa incluiu também um almoço animado pelo Coro do Iscte.
O encerramento, a 30 de outubro, esteve a cargo de Raquel Rego, coordenadora da comissão organizadora, e de Jean-Michel Denis, responsável do CR25-AISLF. Com este congresso, o CIES-Iscte reafirmou-se como um espaço de diálogo entre academia, sindicatos e instituições — num momento em que pensar o trabalho é, cada vez mais, pensar a sociedade.

Texto e fotografias: Bianca Silva