No dia 12 de março de 2026, o Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, acolheu o workshop “Firescapes: How do extreme wildfires reshape Communities: emocionally, socially and Politically?”, dedicado à discussão dos resultados prévios do projeto internacional de investigação Living With Wildfires (LiFi).
O encontro reuniu investigadores e especialistas de várias universidades para debater como as comunidades afetadas por incêndios florestais se adaptam ao aumento do risco associado às mudanças climáticas.

Um dos principais contributos teóricos discutidos no workshop foi o conceito de “firescapes”, entendido como uma lente analítica que conecta crises climáticas planetárias às experiências locais com o fogo. A partir desta abordagem, os incêndios são investigados como eventos que revelam rupturas ecológicas, sociais e morais, mas que também podem gerar novas formas de cooperação e reorganização comunitária.
A análise comparativa dos casos permitiu identificar três dimensões recorrentes nas experiências sociais associadas aos incêndios:
- A imprevisibilidade e intensidade da destruição climática, que transforma rapidamente paisagens e modos de vida;
- colapso das estruturas de segurança, evidenciado por falhas institucionais na prevenção, comunicação e resposta a desastres;
- Uma insegurança ontológica, marcada por luto coletivo, perda de identidade territorial e incerteza quanto ao futuro das comunidades afetadas.

O workshop discutiu também em profundidade o caso português, centrado nos incêndios de Pedrógão Grande em 2017, que afetaram cerca de 10 mil pessoas e teve impacto significativo no debate público sobre a gestão florestal em Portugal. O desastre levou à introdução de novas políticas de gestão do território e à criação de estruturas institucionais relacionadas com a proteção florestal. Ainda assim, as discussões destacaram desafios persistentes, como a presença dominante de monoculturas de eucalipto e as dificuldades na implementação de medidas de prevenção.
Outro ponto destacado foi o papel da Associações de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG), que mantém viva a memória coletiva do desastre por meio de iniciativas de recordação e mobilização social. Essa organização também tem sido parceira importante da investigação, contribuindo para a compreensão das dimensões sociais e políticas dos incêndios.

O workshop contou ainda com a participação de especialistas convidados de várias instituições internacionais, incluindo Michelle Betsill (Universidade de Copenhaga), Ben Cashore (Universidade Nacional de Singapura), David Chandler (Universidade de Westminster), Jason Glynos (Universidade de Essex), Anabela Carvalho (Universidade do Minho), Paula Castro (Iscte) e Joana Sousa (Universidade de Coimbra).
Os especialistas convidados ofereceram comentários críticos sobre o enquadramento teórico e metodológico do projeto, destacando a importância de aprofundar três dimensões analíticas: ontológica, ao relacionar experiências locais com crises planetárias; hermenêutica, ao analisar como comunidades produzem significado diante do desastre; e política, ao investigar a distribuição de responsabilidades e capacidades de ação na gestão do risco.
O workshop destacou, assim, a relevância de abordagens interdisciplinares que integram dimensões sociais, políticas e culturais na análise dos incêndios florestais, contribuindo para uma compreensão mais abrangente dos desafios colocados pela intensificação desses eventos no contexto das mudanças climáticas.
O projeto integra um programa de investigação de três anos e está estruturado em quatro estudos de caso, Portugal, Suécia, Turquia e Brasil, permitindo analisar diferentes contextos sociais, políticos e ambientais. A equipa do projeto inclui Eva Lövbrand (Universidade de Linköping), Ayşem Mert (Universidade de Estocolmo), Elise Remling (Universidade de Canberra), Jelle Behagel (Universidade de Wageningen) e Mehmet Ali Üzelgün (Iscte), responsável pela organização do workshop.
A investigação procura compreender como as experiências vividas durante incêndios, incluindo narrativas, respostas emocionais e negociações sociais, se articulam com transformações ambientais mais amplas. Nesse sentido, o projeto explora de que forma os eventos extremos influenciam valores comunitários, formas de solidariedade e processos de decisão política.